A Guerra

Título Original: Possession
Gênero: Terror
Tempo de Duração: 123 Minutos
Ano de Lançamento: 1981
Direção e Roteiro: Andrezj Zulawski       País: França


Uma ácida crise conjugal se acentua entre Ana (Isabelle Adjani) e Mark(Sam Neil). Depois que Mark volta de uma de suas freqüentes viagens, Ana começa a se afastar da família, só que dessa vez com um envolvimento misterioso que provocará seu isolamento. As discussões se tornam intempestivas elevando ao limite dos problemas de convivência. As agressões se intensificam e surge ao espectador os casos que Ana e Mark mantinham fora do casamento. Ana com Heinrich, um galanteador de pose transcendental e libertária, e Mark com, a amiga de Ana, Margit. Os enfrentamentos compõe a postura questionadora e opressora de Mark, que reflete em Ana oscilando entre argumentos sobre livre-arbítrio e a culpa que a corrói e fere o sentimento de dignidade e amor próprio. Entretanto a gradual guerra que se trava entre eles não é só o que parece ser.

Ana sai de casa e suas visitas se tornam mais raras. Mark muda de comportamento alegando agora ”amar todo mundo” construindo uma armadura diante da situação fora de seu controle, ele arquiteta essa empatia como uma frieza escondida para lidar com a perda do que ele achava “possuir”. O filme caminha para a convicção da existência de uma possessão demoníaca, intuída pelo título do filme. Mas se alcançarmos  um pouco mais podemos nos enganar, porque Zulawski deixa apenas vestígios disso.

Não há exorcismo, cruzes não afugentam Ana. E Mark – ainda que de maneira mais sutil – compartilha das transformações de Ana. A cena da “possessão” de Ana  pode ter a metáfora política do contexto de Berlim na Guerra Fria, ou a metáfora da catarse existencialista. Para mim elas coexistem, e talvez tenham sido feitas para isso. A “guerra” travada entre eles é um reflexo do contexto sócio- político, ou a política e tensão bélica da época foi desencadeada (ainda que microscopicamente) pelo modo como as pessoas lidam umas com as outras? Se o emprego de Mark representasse o aparato de repressão do Estado, e Ana professora de ballet – em um papel de artista, polêmico diante da repressão – o povo, eles não deixariam de ser o aparente casal em crise.

Ana, no vídeo que Mark recebe, dá sinais de exaustão ao modo de vida que se encontra, e divaga sobre suas possibilidades de transcender ao cotidiano que julga insuficiente ( ou sistema político defasado na leitura política). Ela paira entre a as alternativas da loucura e do câncer, entretanto ambos a retirariam da realidade(o que poderia referir-se a alienação ou à militância ). Assim mostra-se a bifurcação diante de um drama, que é entregar-se a tragédia ou a transcendência. Entretanto o personagem de Ana constrói uma estrada unificada dessas duas vias e explicita na tela um exorcismo de suas próprias amarras. Entre o leite, que pode trazer o elemento da família e do filho, um altruísmo, e o sangue que pode trazer a tona uma simbologia do desejo e do egoísmo inerente a o ser humano, Isabelle Adjani se desconstrói e  regurgita sua violência própria. O filme não envelhece nem se limita a visão histórica porque o ser humano sempre se torna vítima de suas próprias regras, e isso se desenvolve desde os relacionamentos, núcleos familiares à extensa política com relação ao poder e a legislação.

A professora do filho do casal, tem a imagem de Ana. Enquanto a criatura que o Ana alimentou, ou construiu tem a imagem de Mark. Nesses personagens espelho dos protagonistas e nos próprios oscila sua realidade e suas expectativas. Mas na cena que essas “cópias” retornam à casa onde está a criança ,e a criança recusa um recomeço sob o áudio de uma orquestra de bombas e balas, pode pesar a dicotomia entre o sistema de governo vigente e a repetição desse erro, com a criança como o fator consciente do problema prestes a se repetir representando o novo,( numa aparente tentativa de suicídio diante da previsão) sufocado pelo antigo.

A situação de guerra pode ser delineada pela frase de Mark “Deus estava na janela”, sendo o apartamento como um campo de batalha. Retira o maniqueísmo comum às guerras quando numa guerra só existem vítimas, já que até os que saem com algum tipo de regalia são vítimas das conseqüências dos próprios atos contra o inimigo. Assim o Deus na janela pode trazer a ausência de regras ou bondade nesse campo de batalha referente ao relacionamento dos dois ou da guerra a sua volta.

O gênero Terror pode ser uma crítica que leva o filme a prateleiras erradas, já que – quanto a minha ótica – o Terror propriamente dito, foi transformado pela veracidade inicial do filme e pelo o monstro com um aspecto desconhecido que não se elucida como demônio. O Terror de “Possessão” talvez seja o inferno existencial e psíquico à que os personagens descem durante o filme, e o inferno que a guerra proporciona. Um filme vivo que se debate na imaginação e interpretação do leitor quase na cadência da premiada Isabelle Adjani, em sua cena principal e magistral.

Roberta Amaral Damasceno

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